Val Kilmer à primeira vista!

Este artigo é parte de uma trilogia feita para um trabalho da faculdade, da disciplina de Processos Psicológicos Básicos (grato a professora Tatiana Jacques por tudo!). Veja o índice aqui.

Para falar sobre “Cognição”, a única escolha disponibilizada pela professora foi “à Primeira Vista” (The First Shight), filme de 1999 baseado na obra do neurologista e escritor Oliver Sacks de mesmo nome. A história de um jovem cego por uma deficiência que descobre no amor a capacidade de mudar as suas vidas. A seguir, o trabalho que eu entreguei para a Tatiana.

1. Resumo rápido do filme
O filme À Primeira Vista, baseado em um conto da obra “Um Antropólogo em Marte”, de Oliver Sachs, conta a história de Amy (Mira Sorvino), que se apaixona por Virgil (Val Kilmer), cego desde a infância mas bem ambientado com suas limitações visuais e seus outros sentidos apurados, e o convence a fazer uma cirurgia para corrigir o seu problema. As conseqüências de um cego bem ambientado a sua vida e uma rotina, tendo que reaprender a viver com esta nova características. A mudança de balizar suas experiencias e sensações na audição para a visão, e a diferença de abordagem de “o que é problema” é o tema do filme dirigido por Irwin Winkler, com Val Kilmer, Mira Sorvino e Nathan Lane.
2. Sinopse do filme
Cego desde a sua infância, Virgil Adamson está acostumado ao seu mundo seguro e escuro de suas possibilidades. Trabalhando como massagista em um spa, ele vive sob a tutela da irmã super-protetora Jenny até conhecer Amy Benic, uma arquiteta de Manhattan. Depois de muita conversa e sensuais sessões de massagem, eles se apaixonam.
Acreditando que a cegueira de Virgil o deixasse “impossibilitado”, começa a investigar se a cegueira de Virgil, causada por “catarata congênita” é reversível. Apesar da desaprovação de Jenny, Virgil muda-se com Amy para a cidade, onde ela Amy convence Virgil a procurar um especialista e assim poder partilhar com ela a única diferença que os separa.
Um médico especialista (Bruce Davison) utiliza uma avançada técnica de reconstituição oftalmológica e opera Virgil com muito sucesso. No entanto, sua nova habilidade em enxergar o mundo acaba criando sérios problemas de adaptação. Expulso de seu mundo sombrio, Virgil tem dificuldades para entender a barafunda de imagens que se sucedem diante de seus olhos. Em vez de sedimentar o relacionamento com Amy, a nova visão de Virgil constrói um abismo entre os amantes.
3. Comentários do filme
O diretor Irwin Winkler ((A maior parte das referências de personagens, atores, diretores… pode ser encontradas no The Internet Movie Database, acessível pelo site www.imdb.com)) faz um ótimo trabalho neste filme. Com um oscar por Rocky (1976), três indicações ao oscar (Raging Bull (1980), The Right Stuff (1983) e Goodfellas (1990)) e produtor da bem sucedida série “Rocky”, repete o seu sucedido trabalho trazendo às telas a filmagem de um conto de Oliver Sacks, “To See and Not See”, parte da obra “An Anthropologist on Mars”. Oliver Sacks é um neurologista britânico que escreve livros contando casos de recuperações de deficiencias, e de pessoas que, devido a acidentes ou doenças, perdem uma faculdade pessoal, e vêem suas vidas transformadas, e suas novas maneiras de encarar a vida. Tendo escrito mais de 10 livros desde 1970, estes o têm tornado um dos escritores mais lidos, possuidor de diversos best-sellers.
As locações são lindíssimas. Filmado em Bear Mountain, New York, USA, um local de paisagens espetaculares, com uma cidadezinha de interior americano, e a pousada onde Virgil trabalha fechando o cartão-postal. Outrs locações do filme incluem New York City, New York, USA, entre outras.
Apesar de várias sequências serem realmente geniais (como o “mapeamento” do armazém onde Virgil e Amy protegem-se da chuva, e Virgil descreve o pavilhão com incrível precisão, apesar da cegueira) muitas delas não são bem explicadas. No momento que o médico retira os curativos, temos a percepção visual de Virgil, que nunca “aprendeu a enxergar”, e o cérebro não sabe como interpretar os sinais que chegam pelo quiasma óptico; porém, para um leigo é difícil entender este fato: “ele não sabe enxergar”. Apesar do médico ter explicado a Jeanny e Amy o que está acontecendo, parece que ele explica sobre o fato de ele não reconhecer a irmã e a namorada e o comportamento defensivo perante a luz, e não as malformadas imagens.
Val Kilmer como Virgil Adamson não impressiona; algumas cenas ele não parece um cego, mas sim um deficiente mental. Sua atuação é fraca, e em muitas cenas não consegue passar a carga dramática exigida. Em diversas cenas vemos ele com o mesmo “sorriso genérico”, inexpressivo, mesmo que a cena exigisse outra expressão. Mesmo sabendo que na fase de adaptação o Virgil estivesse sem um referencial confiável, um pouco perdido em seu próprio mundo, Val não consegue transmitir ao espectador essa angústia do personagem e, na minha opinião, acreditei que tivessem também operado o cérebro; tipo um lobotomia, ou algo assim….
Os outros atores (Mira Sorvino como Amy Benic, par romântico de Virgil; Kelly McGillis como Jennie Adamson, irmã de Virgil…) têm atuações medianas, salvo alguns momentos. Destaque para Phil Webster, o terapeuta em aprendizagem de Virgil, com algumas tiradas cômicas e “lições para a vida”, trazendo à pauta do filme noçoes de teoria da aprendizagem, cognição e outros assuntos.
Para uma análise “psico-cognitiva” o filme reproduz com maestria o conto de Oliver Sacks. Traz com força os sentimentos do cego Virgil, seu ponto de vista como deficiente visual, porém bem ambientado ao seu mundo. A determinação e o ponto de vista da atribulada Amy, que tem um paradigma de vida completamente diferente de Virgil e de sua realidade. Da dificuldade de um cago iver em nossa conturbada sociedade, e uma abordagem de uma vivência dissociada dos estímulos e signos visuais. Aborda, também, noções de aprendizagem (Virgil aprendendo movimentos em uma via expressa, ou diferença entre cópias impressas e formas reais no episódia da maçã) e a adaptação de uma pessoa que nunca enxergou, caso recupere o aparelho visual, deve reaprender a “enxergar”. Especialmente neste ponto, é importante realçar o seguinte ponto: a faculdade de enxergar não depende somente do aparelho visual (entenda aparelho visual como olhos, nervos e ligações olhos-cérebro), mas sim de aprender a enxergar e discernir formas. Como Virgil perdera a visão muito cedo (no filme menciona “aos 3-5 anos”) o seu cérebro não se muniu de um alfabeto visual, não sendo possível discernir os sinais que chegam dos olhos até o cérebro. Em suma: o cérebro até recebe as imagens dos olhos perfeitamente, porém não consegue associá-las a nada que existe em seus registros, nem consegue lidar com elas.
Este fenômeno pode ser observado no filme durante a festa do ex-namorado de Amy, onde ele se desconcentra devido ao ciúme sentido por ver sua Amy beijando o seu ex, e esbarra em uma parede de vidro, estilhaçando-o. Isto pode nos levar a crer que, também conosco, fenômenos como este ocorre: Ilusões de ótica e truques de mágica são ótimos exemplos.
Quando vemos uma figura impressa, estática, que parece estar se movendo, apesar de sabermos que não é possível a tinta mover-se, pode ser explicado através do mesmo motivo: o nosso cérebro trata imagens semelhantes a esta como se fosse movimentos, e ela é intencionalmente construída a confundir nossos pressupostos e ir contra nossos paradigmas. Observe a figura abaixo ((Referência: http://buratto.org/otica/Curioso01.html, acessível no site: www.ilusaodeotica.com. )) :

Quando olhamos para a parte de cima do elefante o nosso cérebro pressupõe a parte de baixo, e enxergamos as patas alinhadas com o corpo. Quando prestamos atenção nas patas do elefante, percebemos que nenhuma das patas faz parte do desenho. Vemos também dificuldades quando a informação vista não faz parte do nosso alfabeto visual. Observe a cor do quadrado abaixo. Qual a cor que você enxerga? Azul ou verde?
Para muitas pessoas perguntadas, é um verde. Para alguns, é azul. Poucos reconheceram um ciano-escuro (também chamado verde-mar ou turqueza). Veja a construção desta cor ((RGB é uma abreviatura para o sistema de cores aditivar formada pelo vermelho ( R, vermelho, do inglês red), pelo verde ( G, verde, do inglês green) e pelo azul ( B, azul, do inglês blue). Mais informações em http://pt.wikipedia.org/wiki/)):

Vemos através da construção acima que vai a mesma quantidade de verde e azul, porém não é verde; tampouco azul. Uma pessoa ambientada com cores (como um profissional de design, um publicitário ou um amante de arte) reconheceria prontamente, pois o seu cérebro possui dados semelhantes em sua memória para analisar esta informação; pessoas comuns não possuem tantas informações em seu alfabeto visual, impossibilitando-as de discernir o ciano de um verde. Nos dois casos – o profissional gráfico e a pessoa comum – têm olhos perfeitos; o que difere é a maneira que o seu cérebro, com base em suas vivências e lembranças, interpreta estes sinais.
4. Considerações Finais
Apesar de tratar de um bom tema (drama psicológico e “ponto de vista” de um cego), o filme pode ser considerado “bom, graças ao ótimo roteiro de Oliver Sacks, que o impede de cair à categora “mediano”. A problemática tratada por Oliver em seu conto, e conseqüentemente no filme, é que o salva e o dá “substância”; do contrário seria apenas mais um da interminável fila de “romances que provocam superação do mais fraco”. Filmes como “Um Amor Para Recordar” e até “Titanic” abordam “romances proibidos” e “superando limitações”, com atuações mais impressionantes e pérsonagens mais cativantes. Filmes da Disney e da Buena Vista já fazem roteiros assim desde a década de 70, com relativo sucesso. O que torna o filme louvável é a problemática incluída por Sacks, que tira o filme dos acervos de blockbusters ((Gíria anglicana usada para filme produzido para “as grandes massas, com grande sucesso – principalmente financeiro – nos cinemas”))e o joga nas salas de congressos e palestras do círculo da psicologia, psiquiatria e neurologia. Nos outros, é apenas mais um romance que rema para chegar ao final.

9 pensamentos em “Val Kilmer à primeira vista!”

  1. ADOREI ESSE SITE!!!!!

    SOU ESTUDANTE DE PSICOLOGIA 4º SEMESTRE E SEMPRE ESTOU LOCALIZANDO ASSUNTOS QUE ME BENEFICIAM NESSE CURSO.

    GOSTARIA DE RECEBER TODAS AS INFORMAÇÕES RELACIONADAS A PSI.

    GRATA,

    LIVIA ANDRADE.

  2. Olá!
    Meu nome é Geovania, e estou fazendo um trabalho no meu curso sobre o filme À Primeira Vista, e tudo o que estava procurando sobre o mesmo enconrei nessa página.
    Ah, mais uma coisa pretendo fazer psicologia e achei muito interessante a parte do elefante.
    Obrigada,
    Geovania

  3. Olá! Meu nome é Vanessa, sou estudante de psicologia 3º semestre e gostaria de saber a relação do filme com o o tema: a representação do conhecimento: Por imagens e de maneira verbal…

    Adorei o filme!

    Grata

    1. Desculpa a demora pela resposta… estou reativando o meu blog, depois de quase um ano…

      Assim: Na história original acredito que não é mencionada (não lembro pq faz tempo que eu li); já no filme ele sofre de “catarata congênita” que aparentemente é reversível através de cirurgia, mas acaba-se percebendo que é também “retornável” — mesmo tratando, ela acaba por voltar… A doença em si é menos importante que a própria “passagem” que o protagonista tem de sua cegueira, e da forma que ele se comporta para “aprender ” a enxergar…

      E deve lembrar-se que este roteiro é baseado em uma obra baseada na vida real. É uma obra romantizada, no mínimo, duas vezes!

  4. Olá,

    Sou estudadante de psicologia, e gostaria de receber mais informações sobre outras deficiencias e maneiras de adaptações dessas pessoas que aparentemente são limitadas, mas que na verdade sao dotadas de percepções incriveis..
    adorei o filme

    abrçs

  5. Estou fazendo uma resenha do filme e tudo que eu encontrei aqui foi de muito valia para meu trabalho. Agradeço com muito louvor. Sou do curso de Psicologia e estou amando tudo isso! Obrigada por ajudar e com certeza sempre que precisar estarei entrando em contato.

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