A felicidade foi apenas um sonho (resenha)

Para a disciplina de Psicologia Social 1, o professor Fábio Moraes exibiu o filme “Foi Apenas um Sonho”. De Sam Mendez, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, a película fala sobre o padrão de família da sociedade da década de 50 e os conflitos resultantes pelos desajustes daqueles que se desviam deste — o mesmo casal de Titanic, desta vez, interpreta com grande competência. Após o filme, pediu a turma que comparasse a obra de Freud “O mal-estar da civilização”. Aqui está o trabalho entregue a disciplina e a segunda parte deste texto pode ser lida aqui (artigo será publicado em 30/10/2010).

Cartaz do filme "Revolutionary Road" para os cinemas.No mundo pós-Primeira Grande Guerra vislumbrou-se um mundo transformado pela constatação de que as instituições que produziam confiança e segurança a humanidade falhavam em seu papel, colocando o homem em um dilema: “em quem – ou no que – confiar?” A Igreja?, o Estado?, a Ciência?; nada pôde possibilitar ao homem a segurança e tranquilidade que ele demandava. Sigmund Freud, em sua obra “o mal-estar na civilização”, aborda a demanda de felicidade e, contra o paradigma que prevalecia na sociedade até então: o homem nasce e vive na (e através da) angústia, e felicidade é a presunção de um sentimento de união, de pertencer a algo muito mairo que a sua compreensão (que Freud chama de “sentimento oceânico”), ao invés da falácia antiga de que o homem vive para (e através da) felicidade plena. Freud percebeu, como alguns filósofos estóicos da Grécia Antiga, que a felicidade plena leva invariavelmente a frustração ou ao tédio, que a humanidade subscreve-se através de um paradigma onde a angústia é a constante do homem – e, por vezes, desejada, visto que mais que a própria ação promotora de felicidade, o contraste entre os estados é que aumenta a “felicidade” percebida.

No filme Foi apenas um sonho (Revolutionary Road, de Sam Mendez) vemos um casal padrão da década de 50, pós-guerra e em plena Guerra Fria, vivendo em uma sociedade eivada de preconceitos e em progressão num mundo em constante transformação. Vemos April (Kate Winslet), uma atriz que não consegue encontrar emprego, vivendo no súburbio de uma cidade grande, com única função de criar os filhos e cuidar da casa. Desajustado com este padrão social, vive em constante angústia por bastante tempo até que, relembrando do início do relacionamento com seu atual marido, Frank Wheelers (Leonardo DiCaprio), um vendedor/publicitário[i] self-made, que teve uma ascenção lenta porém constante de estivador ao atual posto na empresa que seu pai trabalhara por 30 anos, e que não se sente valorizado e motivado pelo seu ofício, decidem promover uma revolução em suas vidas com uma mudança paradigmática: mudarem para Paris, onde April teria um emprego em uma “organização dos Estados Unidos” e Frank poderia desenvolver o seu potecial máximo ao invés de escravizar-se em um emprego que não o motiva e não o realiza. Essa esperança transforma a vida de todos e, ao longo dos dias, confrontam-se com dificuldades intervenientes a esses planos: uma promoção inesperada oferecida a Frank e uma gravidez tambpem inesperada, sem contar a oposição de toda uma sociedade construída e balizada em um paradigma diametralmente oposto aos anseios da família Wheeler.

Percebemos que a angústia é, mais evidente em uns que em outros apesar de presente em todos, o plano de fundo da obra. April é a que mais evidencia essa angústia e a necessidade de transformação: percebemos uma fala dela que, quando perguntada se queria muito ir para Paris, responde “que queria sair [daqui]”[ii], ou seja, queria apenas uma transformação, seja ela qual fosse. Vemos a semelhança com a obra de Freud citada, pois ele argumenta que não é a felicidade em si que nos promove satisfação, mas sim através do contraste, da diferença. Podemos, também, perceber a angústia de April através da esperança no intangível, com a consumação dos seus desejos sempre além do seu alcance. Mas temos o exemplo de Frank que, apesar de parecer feliz, tem comportamentos de desespero e de quebra do status quo (como a traição com a secretária no dia do seu aniversário, a aceitação da gravidez…). Os amigos e vizinhos dos Wheeler, quando confrontados com o “devaneio” deles, sentem-se ameaçados e colocam-se em questionamento sobre a sua adoção do contrato social – seja o choro desesperado da esposa, por medo de que o marido se animasse com a idéia ou mesmo de se sentir impelida a executar esse papel, seja pela traição do marido com April, por ver nela uma “energia” diferente da sua esposa. A família Grivvins[iii], que confronta com grande reticência a utopia desejada pelo casal Wheelers e que, surpeendentemente, é compreendida pelo seu desajustado filho – e, como ele é considerado “doente” e “desajustado” pela sociedade, é também a resposta desta mesma sociedade ao sonho dos Wheelers: um desajuste. No fim do filme percebemos o preço cobrado pela pasteurização dos sonhos e aspirações àqueles que não possuem força psíquica [iv](ou desejo) para sustentá-la: April aborta seu filho, apesar do risco inerente desta ação, causando a sua morte; Frank, que vê em sua covardia e passividade frente ao sofrimento de sua esposa, a desistência deste sonho comum, causando a falência de sua estrutura familiar-padrão, ficando sozinho com dois filhos. Àqueles que confrontaram menos a possibilidade de “quebrar” com o contrato social vigente sobra o resquício dessa energia dos Wheelers: que, por pensar em outra via, coloca todos (mesmo que interiormente) em questionamento sobre sua própria existência – vemos o vizinho dos Wheeles que, no fim do filme, prefere “não mais falar sobre os Wheelers” ou o patriarca dos Grivvins que, na última cena do filme, prefere desligar seu aparelho de surdez para não ter que confrontar sua mulher que, presa em um discurso superficial e simplista, não lhe dá outra escolha senão fugir em sua surdez funcional.

Tanto em “O Mal-Estar na Civilização” quanto em “Foi Apenas um Sonho” angústia é a constante, tanto o motor quanto o estruto básico. O homem na modernidade constrói-se, não na consumação da felicidade, mas sim na busca incessante dela, através de um padrão de angústia constante e perene proveniente dessa busca que está fadada, senão ao fracasso, a uma completação inconstante e sucessiva. A Angústia, mais que um sentimento, é a cor cinza que pinta o fundo de cada foto, cada quadro, cada cena vista por cada habitante da Terra – apesar de matizes mais ou menos claros, um cinza constante. Vale muito cada gota de tinta colorida que aparece, vez que outra, mas o cinza é a constante. Constante.


[i] Apesar de essa profissão não ficar clara na narativa, as funções desempenhadas pela personagem são deveras semelhante.

[ii] Houveram divergências entre as versões do filme – original, legenda em português, dublagem em português – apesar de o sentido ser o mesmo. Em colchetes o texto é presumido, apesar de claro.

[iii]Ou do matemático maluco.

[iv] Uso “força psíquica” no sentido de cognição, lastro cognitivo, estrutura cognitiva; uso, porém, esta expressão para não haver confusão com nenhuma linha teórica.

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